ADENDO

 

Certa vez, por volta dos meus doze ou treze anos, participei de um concurso que consistia em descrever em um parágrafo, de no máximo três linhas, o que era ser cidadão. Não me lembro do trecho todo exatamente, mas, essencialmente, dizia que “ser cidadão é respeitar o outro, é ter noção de seus direitos e cumprir com seus deveres e lutar por um mundo melhor”. Lembro-me, ainda, de não ter utilizado dicionário ou enciclopédia para formular meu pequeno texto, e de ter ganho o concurso. Apesar do tempo, quase quinze anos, não sei se escreveria a frase de outra maneira, mas com certeza, faria um adendo.

 

Hoje um pouco mais maduro, penso, sem falsa modéstia, que a frase trazia em seu bojo, alguns conceitos básicos em ser cidadão e praticar a cidadania. Respeito, direitos e deveres e luta por mudanças. Essas foram e continuam sendo, em minha opinião, as molas propulsoras da evolução da cidadania nas sociedades modernas, e estampada, sabiamente, em nossa Constituição de 1988. Mas se os conceitos são básicos, por que é tão difícil praticá-los? Ao meu adendo.

 

Acho que o que está nos faltando é um jeitinho, uma malandragem, de entramos no jogo e contrariar o sistema. O que nos falta é utilizar a cordialidade, de Paulo Prado, de maneira correta, e fazermos uma nova leitura da relação público e privada da teoria de Sérgio Buarque de Holanda. Temos que começar a sacanear, temos que ser “espertos” e sermos honestos. Temos que ser “espertos” e demonstrarmos ética em nossas ações. Sou a favor da banalização do respeito a todos os homens. Vamos ser incorretos, e sejamos fiéis aos nossos princípios. Vamos ter princípios. Vamos subornar, e sermos respeitadores das regras. Vamos nos apropriar indevidamente das nossas virtudes e expô-las sem medo. Vamos traficar a bondade para sermos agentes de mudança. Que tal ainda se corrompêssemos o sistema para agirmos com transparência? Vamos sacanear todo mundo e sermos cada vez mais bondosos, dignos e evoluídos. Que tal agredirmos as pessoas com lhaneza? Sejamos revolucionários, rebeldes sem causa e sejamos bem intencionados. Vamos ser apenas cidadãos, vamos respeitar uns aos outros e conhecer nossos direitos, para que cumpramos com nossos deveres, para termos legitimidade de mudar o mundo. Sejamos sem vergonha ao ponto de bradarmos pela honestidade. Não sejamos hipócritas. Vamos ser pulhas e respeitar todas as leis. Vamos ser patifes a tal ponto de não nos mirarmos em exemplos ruins para embasar nossas ações. Sejamos racionais quando for preciso e choremos de alegria por temos compaixão. Que tal ainda se não tivéssemos pudor algum e fôssemos solidários? Mintamos para o sistema e sejamos leais. E sejamos, acima de tudo, estúpidos, grosseiros e vis, e sejamos incorruptíveis. Hoje compreendo que ser cidadão e exercer a cidadania é expor à sociedade, nosso melhor face, a face do justo, em ser justo. 

 

Muita coisa aconteceu em quase quinze anos. Muita coisa mudou, e muita coisa que não precisava mudar, também mudou. De modo que se pudesse voltar no tempo, e agora um pouco mais maduro, acrescentaria àquela frase esse meu adendo. Não sei se ganharia o concurso, mas menos carregado ficaria.

 

Ullysses A. F. Parisi é sociólogo (UNICAMP) e Advogado (PUCC)

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