Défense d`interdire (É proibido proibir)

 

 

Dois monges budistas conversam sobre o escalar de uma temerária montanha. O mais novo disse:

– Essa montanha é muito alta. Estudei todos os caminhos possíveis, tenho todos os equipamentos disponíveis, ela continua sendo alta, estou com um pouco de medo mas certo que conseguirei.

E o mais velho, no alto de sua sabedoria disse:

– Meu jovem o problema não está na montanha mas nos pedregulhos de sua trilha.

 

Em 13 de maio de 1968 os funcionários da Renault francesa lançaram um panfleto que resumia bem os sentimentos daquele ano pungente. Assim dizia: “se queremos aumento salarial e melhores condições de trabalho, se não queremos ser constantemente ameaçados pelos patrões, então nós trabalhadores precisamos lutar por uma transformação estrutural na sociedade (…) Como trabalhadores, nós devemos nos esforçar para controlar o curso das nossas ações. Nossas reivindicações são similares a aquelas dos estudantes. Tanto a administração da indústria como a da universidade deveriam ser democraticamente controladas por aqueles que ali trabalham”.

Grande estudioso da teoria marxista, Hebert Marcuse, acenava que aquele era um momento histórico, pois duas classes ainda que distintas em sua essência e em suas reivindicações, lutavam juntas contra uma classe dominante e opressora: a burguesia francesa. Tudo parecia caminhar para uma vitória mas nem tudo ocorreu como o planejado. Os trabalhadores e estudantes, que a princípio lutavam contra o governo gaullista, reacionário e burguês, para modificar as estruturas, descobriram durante o movimento que outras forças se opunham, pretensiosamente, as investidas dos revolucionários contra a destituição da sociedade de classes; os sindicatos e o próprio Partido Comunista Francês.

Os dizeres do panfleto refletiam os sentimentos de revolta, abriam as estratégias e os objetivos, mas expuseram, também, os erros, que não deram àquele ano a vitória integral aos opositores do sistema. A transformação estrutural da sociedade [SIC] como pretendia os trabalhadores, não se ajustava com o ideal de democracia [SIC], (elementos incompatíveis na teoria marxista), pois foram nas brechas democráticas que a burguesia conseguiu retomar o poder. Era necessário antes de tudo uma transformação radical na esfera de dominação política. Assim, quando Charles D’Gaulle retomou ao poder na França, eleito democraticamente em junho de 1968, Daniel Le Rouge (O vermelho), ícone do movimento estudantil, resumiu o sentimento dos participantes daquele histórico mês e afirmou que “perdiam no campo político mais ganhavam na esfera sócio-cultural”. È inegável as transformações que o movimento de maio de 1968 trouxe ao modelo sócio-econômico de toda uma geração, que influenciou muitos países ao redor do mundo. Ainda que nascido despretensiosamente, de uma proibição de não entrada dos alunos homens no dormitório das meninas na universidade de Nanterre, o movimento de 1968, quando assimilados pelas forças produtivas (os trabalhadores), encolerizou o establishment, suscitando todo uma sociedade retrograda, reacionária e opressora. Não obstante a todo esse cenário, é inegável, pois, que há na frase de L’Rouge, um certo conformismo em não ter conseguido completado sua tarefa, alimentada pelas teorias marxistas e bandeiras leninistas, que incluíam em seu “manual revolucionário” a tomada das forças políticas, que cumpriam papel primordial no espeque da classe dominante; prevendo que isso seria obras para séculos, deixando claro o caminho a ser tomado em futuras ações revolucionárias em sistemas capitalistas opressores e desenvolvidos.

Aquele período, nas palavras de Zuenir Ventura, foi “movido por uma até hoje misteriosa sintonia de inquietação e anseios, a juventude de todo o mundo parecia iniciar uma revolução planetária”, fato foi irrefutável, e que criou, e ainda cria, em todos nós certa expectativa em ver acontecer de novo, algo parecido, mas que, em verdade, distancia-se. O movimento de 68 serviu, contudo, como paradigma positivo de incitação à luta contra a tirania, contra injustiças, para que sejamos cada vez mais realista e desejemos o impossível *, e como lição histórica de que movimentos revolucionários devem, para serem bem-sucedidos em sua integralidade, ater-se a conquista da superestrutura política.

Mas os tempos são outros. De acordo com Jean-Baptiste Prévost, presidente do sindicato estudantil “a juventude mudou muito em relação a 68. Suas condições de vida se degradaram muito; suas preocupações em relação ao futuro –com o desemprego– são maiores; o que explica as formas de engajamento mais materiais”. Nessa mesma guinada Daniel Cohn-Bendit, (O Vermelho), considerado por muitos como a encarnação do Movimento de Maio, hoje deputado alemão, afirma que a sociedade “tem outros problemas”, diferentes daqueles de 1968, e em seu livro “Forget 68”, pede para que viremos a página.

O que se extrair de tudo isso é que de algum modo ou de outro, sempre a classe dominante tem um trunfo nas mãos que manipula, maquila e não deixa as classes oprimidas viverem plenamente. Serge Faubert, sociólogo francês, recopila esse sentimento: “Em 1968 tudo era possível na França onde havia trabalho para todos, mas nada era permitido. Hoje tudo é permitido para aqueles que tem dinheiro, um bom trabalho, mas nada é possível para a grande maioria de nossos co-cidadãos”.

ULYSSES PARISI

 

 

 

 

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